01 abril 2009

A solidão do corredor de longa distância


A solidão do corredor de longa distância ou, como no original de Alan Sillitoe, "The loneliness of the long distance runner", é uma história de fuga e de subversão. O jovem Colin corre para fugir à ordem opressora da sociedade, seja a sua família ou a prisão-escola para onde é enviado.

Correr é uma fuga, remete-te, primeiro, para dentro de ti e, depois, quando a boca seca, os pulmões ardem e as pernas começam a pesar, força-te a esquecer o corpo e a entrar noutra dimensão, quase espiritual, diria.

Correr é dor, é sacrifício; surfar é antes de mais, prazer. A recompensa do esforço é quase sempre imediata: mesmo nos dias mais difíceis, descemos uma onda e a energia volta num instante; correr é mais complicado. A recompensa vem só no final, com o simples prazer de respirar, de sentir o sangue voltar a fluir a uma velocidade normal, os músculos relaxar.

Sim, as diferenças são enormes mas a maior semelhança é a lição de Colin: surfar é subversivo; o encontro com o mar e connosco é a fuga à sociedade, aos "outros"; ao emprego, à família, aos amigos de terra, aqueles que não percebem.

Recordo-me sempre de uma conversa que tive com o meu amigo Quilhas à saída de uma surfada épica em Peniche. Ambos felizes como putos mas a correr para os telemóveis, o cordão umbilical com o Mundo para o qual deviamos ter voltado há duas horas. Ele tinha deixado a mulher e a filha, e eu, a namorada.

No meio daquela alegria culpada que ainda nos encharcava o cabelo e os ossos, especulámos o quão mais fácil seria se elas soubessem... Se o Mundo soubesse...

Aflige-me saber que há pessoas que não conhecem o prazer de descer uma onda. Mas enquanto os "outros" não sabem, deixem-me gozar esta solidão especial. Só eu e o mar.

4 comentários:

  1. Realmente surfar é fugir. Mas também é para colocar as idéias em ordem, aproveitando o momento exclusivo com as ondas.

    http://mundosalgado.blogspot.com/

    falothau

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  2. Quando foges do Mundo e tiras tudo o resto da cena, o que resta és tu. Foges para te encontrares e "colocar as ideias em ordem".

    É bom ter um nome e um rosto para variar. Estou um pouco farto de anónimos. Bem-vindo.

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  3. Desculpe não ter uma foto, é que não costumo comentar em blogs, mas o assunto aqui tratado me chamou a atenção. Já corri longas distâncias, tanto no calçadão da orla de Salvador (31 km), quanto na areia fofa da praia (18 Km), e o fazia em tempos em que eu estava com problemas sociais, quando me sentia de certa forma não-adaptado à sociedade, devido a vários motivos. Corro desde os quinze anos, tenho vinte anos hoje, e continuo a correr longas distâncias (principalmente quando tenho conflitos) e é exatamente o que foi descrito aqui, a corrida é dor, e a recompensa só vem no final, e é uma grande recompensa, pode-se dizer mesmo que é espiritual. Acho que surfar é uma boa opção, pois este não prejudica a memória, a corrida de longa distância, sim, isso é comprovado cientificamente, vou mudar o meu esporte, talvez eu comece a surfar, rs. Um abraço. Edinaldo (edinaldodefrancafilho@hotmail.com)

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  4. Gostei deste seu "resumo" do livro do Sillitoe, fant´stico e...esquecido.
    Como a liberdade e a solidão da "fuga" -seja ela qual for- ou da subida na onda (que eu não conheço, confesso...).
    Abraço Boas ondas!
    Vou falar desse livro em breve...
    http://falcaodejade.blogspot.com

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